Ficção

A Estação dos Ecos

A Estação dos Ecos

A estação tinha um relógio parado e um bilheteiro que nunca parecia surpreso. Ricardo trabalhava ali há vinte anos e dizia que o lugar guardava vozes como paredes guardam umidade.

Na primeira noite de inverno, uma mulher desceu do trem chorando e pediu passagem para uma cidade que não constava no painel. Ricardo não hesitou. Imprimiu um bilhete em branco e disse: «Escute antes de embarcar.»

Ela escutou. Entre dois anúncios distorcidos, ouviu a própria voz de criança pedindo desculpa a alguém que já não estava vivo. O eco não repetia o passado — devolvia o que faltava dizer.

Outros vieram depois. Cada um ouvia algo diferente: um pedido de socorro, uma receita ditada pela avó, um «eu te amo» que nunca saiu do peito. Ricardo anotava os horários num caderno sem explicar por quê.

Quando a estação foi fechada para reforma, encontraram o caderno. Não havia nomes, só horários e uma frase repetida: «Alguns trens não levam para longe. Levam para dentro.»

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