Ficção

A Varanda das Cinco

A Varanda das Cinco

Havia um minuto exato em que a cidade parecia respirar junto: cinco da tarde. Nesse instante, Sérgio levava o café para a varanda, Lúcia regava as plantas, e um homem de camisa listrada lia em voz baixa um livro que ninguém ouvia por completo.

Moravam em prédios distintos, separados por um beco estreito, mas alinhados de tal forma que podiam se ver sem se olhar diretamente. Era um ritual discreto, quase urbano.

Numa quarta-feira chuvosa, a luz de Lúcia apagou. Sérgio hesitou, depois acendeu a sua mais forte, como quem deixa uma vela na janela. O homem da camisa listrada fez o mesmo.

Na noite seguinte, Lúcia apareceu na varanda com um bilhete preso à grade: «Obrigada.» Sérgio respondeu com outro: «Amanhã trago bolo.» O homem listrado riu pela primeira vez em meses.

Não viraram amigos de imediato. Mas, a partir daquele dia, as cinco horas deixaram de ser apenas um horário. Viraram promessa.

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