Correspondência de Chuva

A casa de esquina estava fechada há dois anos quando Laura alugou o apartamento dos fundos. Na primeira chuva forte, ouviu a tampa da caixa de correio bater três vezes.
Dentro, uma carta sem selo e sem remetente: «Se você leu isto, é porque voltou a escutar.» A letra era da mãe, morta antes de Laura terminar a faculdade. O papel cheirava a lavanda e tinta azul.
Ela quase chamou a polícia. Quase. Guardou a carta num livro e esperou a próxima chuva. Veio uma semana depois, com outra mensagem: «Não precisa acreditar. Só precisa responder.»
Laura respondeu na janela, com giz, numa noite de garoa. Não sabia para quem. Na manhã seguinte, encontrou na caixa um desenho de bicicleta vermelha — a mesma que aprendera a andar sem rodinhas.
Parou de procurar explicação racional. Passou a escrever quando chovia: medos, gratidões, receitas, pedidos de desculpa. As respostas não chegavam sempre. Mas, quando chegavam, a casa de esquina parecia, pela primeira vez, habitada por duas pessoas.


