Memórias

Herança de Papel

Herança de Papel

O baú cheirava a madeira antiga e a tabaco de cachimbo. Dentro, além de chaves sem fechadura e fotografias desbotadas, havia um baralho inteiro de cartas lisas, sem nenhum desenho.

Marina achou estranho, mas levou tudo para casa. Na primeira noite, escreveu uma pergunta no verso de uma carta e deixou-a sobre a mesa antes de dormir.

De manhã, ao acordar, encontrou palavras na frente — letra miúda, firme, igual à do avô. Não era resposta direta; era mais como um lembrete de algo que ela sempre soubera e preferiu adiar.

Testou de novo. E de novo. As cartas nunca mentiam, mas também nunca simplificavam. Diziam verdades do tamanho certo para caber numa noite de insônia.

Quando a última carta se preencheu, Marina percebeu que o baralho não adivinhava o futuro. Apenas devolvia, em pequenas doses, o que a família inteira tinha deixado sem dizer.

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