Ficção

Neblina no Porto

Neblina no Porto

Antônio conhecia o porto pelo cheiro. Mesmo aposentado, acordava cedo e caminhava até o cais, como quem verifica se o mar ainda está no lugar.

Naquela manhã, a neblina era tão densa que apagou o horizonte. Os guindastes viraram sombras. O café da barraquinha parecia suspender o vapor no ar.

Foi então que viu o navio: casco alto, cordas grossas, nome pintado em letras que ele só lembrava de ter lido em sonhos de infância. O mesmo navio do pai, perdido décadas antes numa viagem sem retorno.

Correu até a borda. A escada estava baixada. No convés, ninguém — apenas uma bússola antiga e um bilhete: «Leve quem precisa voltar.»

Antônio não embarcou. Colocou a bússola no bolso e, quando a neblina se dissipou, o navio já não estava. Mas o cais cheirava, pela primeira vez em anos, a casa.

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