O Ateliê das Luas

O ateliê ficava no último andar de um prédio antigo, sem placa na porta. Beatriz pintava exclusivamente luas: crescentes raras, luas cheias que nunca existiram, quartos minguantes de datas esquecidas.
Não vendia para galerias. Vendia para quem chegava com uma data na mão e uma história mal contada. «Não pinto o céu», dizia. «Pinto o que ficou pendurado nele.»
Tomás entrou numa terça-feira molhada com a data do funeral da mãe. Beatriz preparou a tela em silêncio, misturou azuis que pareciam respirar e, ao entardecer, revelou uma lua baixa sobre um campo que ele jurava conhecer.
Tomás chorou sem vergonha. Não era o campo da infância — era o campo da despedida que ele não teve coragem de atravessar. A pintura não trazia a mãe de volta; trazia o instante em que ele ainda podia dizer adeus.
Quando saiu, a rua estava iluminada por uma lua comum. Beatriz fechou o ateliê e guardou os pincéis. Havia noites em que pintar era apenas escutar quem bate à porta sem saber o que pedir.


