Memórias

O Jardim das Vozes Antigas

O Jardim das Vozes Antigas

O terreno estava abandonado há anos quando Dona Célia pediu autorização para cuidar dele. Não queria construir nada — queria plantar memória.

Começou com mudas simples: manjericão, alecrim, boldo. Depois vieram espécies que os netos não reconheciam, trazidas de viagens antigas e de conversas em mercados de bairro.

Os vizinhos notaram primeiro os cheiros, depois os sons. Não eram pássaros. Pareciam frases curtas, presas nas folhas, como se o vento lesse em voz alta trechos de cartas antigas.

Uma menina gravou um áudio e viralizou na vizinhança. Dona Célia não se importou. Disse apenas que o jardim sempre falara; a cidade é que andava rápido demais para escutar.

Quando faleceu, deixou o terreno aberto. Hoje, quem passa ainda encontra o portão destrancado e um caderno à entrada: «Regue se quiser continuar a conversa.»

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