Ficção

O Telescópio de Vidro

O Telescópio de Vidro

Eduardo montava o telescópio de vidro toda vez que o céu limpava. Era peça única, herdada de um tio que jurava falar com constelações. Os vizinhos achavam bonito. Eduardo achava necessário.

Na terceira semana de observação, notou um padrão: estrelas piscando em sequência, como morse celestial. Anotou, decifrou, traduziu. As mensagens eram curtas: «ainda aqui», «olhe para baixo», «não está sozinho».

Chamou uma amiga física. Ela riu, depois calou. O padrão não era aleatório — mas também não vinha de satélites conhecidos. Vinha de reflexos: luz urbana batendo em janelas de um prédio em frente, sincronizada por alguém.

No outro terraço, uma menina de doze anos segurava um espelho e um caderno. Não buscava fama. Buscava companhia para noites em que a mãe trabalhava até tarde. «Pensei que ninguém olhava para cima», disse ela.

Eduardo desceu com chocolate quente. Passaram a conversar por luz e papel. O telescópio de vidro continuou apontado para o céu — mas Eduardo, enfim, entendeu o tio: às vezes, o universo responde na janela ao lado.

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