Ficção

O Último Ônibus da Noite

O Último Ônibus da Noite

O motorista conhecia cada buraco do asfalto e cada silêncio dos bancos vazios. Havia vinte anos naquela rota, e ainda assim, certas noites pareciam estranhas — como se o ônibus atravessasse uma versão mais honesta da cidade.

Rafaela subiu na parada da ponte com um casaco grande demais e um bilhete amassado. Não era a primeira vez. Sempre escolhia o último horário, quando ninguém perguntava para onde ia.

No meio do trajeto, uma senhora de cabelos brancos pediu para descer num ponto que não constava no mapa. O motorista assentiu sem estranhar. Rafaela quis perguntar, mas o silêncio parecia mais educado que a curiosidade.

Quando chegou sua vez, desceu diante de uma rua que ela jurava não existir na luz do dia. Havia uma padaria acesa, cheiro de pão quente e uma placa com o nome da mãe, falecida havia dez anos.

Rafaela entrou. Não encontrou a mãe — encontrou, porém, a conversa que nunca tiveram. Ao voltar para a calçada, o ônibus já tinha ido. Mas a rua, pela primeira vez, permanecia.

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