Trilha Além do Pôr do Sol

João não vendia aventura; vendia atenção. Por isso limitava as caminhadas a seis pessoas e recusava quem chegava com pressa.
A trilha começava comum o bastante: pedras, pinheiros, o vento cortando o rosto. Mas João só avançava quando o sol tocava o horizonte, como se o caminho dependesse da cor do céu.
Com o crepúsculo, o mato mudava. Flores que não estavam ali de manhã abriam pétalas largas. O ar ficava doce, quase comestível. Uma participante chorou sem saber explicar.
No alto, não havia mirante nem placa. Havia apenas um banco de madeira e uma vista que parecia recém-desenhada. João disse: «Agora vocês podem falar.»
Na descida, já na escuridão, alguém perguntou se a trilha seria real no dia seguinte. João sorriu. «Ela sempre existiu. Só pede o horário certo para ser vista.»


